Pesquisas recentes mostram avanços promissores no tratamento farmacológico da chamada vista cansada. Novos colírios buscam corrigir a visão de perto sem cirurgia ou óculos.
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A presbiopia é uma condição fisiológica associada ao envelhecimento, caracterizada pela perda gradual da capacidade de focar objetos próximos. Costuma surgir a partir dos 40 anos, quando o cristalino perde elasticidade e o músculo ciliar apresenta menor eficiência. O resultado é a dificuldade para ler de perto, necessidade de afastar objetos e, eventualmente, dependência de óculos.
Diferentemente de outras ametropias, a presbiopia não é causada por deformações anatômicas fixas. Ela decorre de alterações bioquímicas e estruturais do cristalino, que reduzem sua capacidade de acomodação. Isso explica por que terapias regenerativas ou farmacológicas têm sido exploradas com tanto interesse.
Quais colírios já foram testados para corrigir a visão de perto?
Diversas formulações farmacológicas estão em estudo para reduzir a dependência de óculos de leitura. Segundo uma revisão sistemática publicada em 2024 (An updated systematic review of pharmacological treatments for presbyopia, PMC11541684), as principais abordagens incluem o uso de mióticos, substâncias que reduzem o diâmetro pupilar e aumentam a profundidade de foco.
Entre os agentes estudados, destacam-se:
- Pilocarpina 1,25%, aprovada pelo FDA em 2021 sob o nome comercial Vuity®.
- Aceclidina, ainda em desenvolvimento, mas recentemente aprovada nos EUA (2025) sob o nome Vizz®, da LENZ Therapeutics.
- Outras formulações combinadas, como brimonidina + pilocarpina ou carbacol + brimonidina, que permanecem em fase experimental.
Esses colírios não restauram a acomodação natural, mas simulam o efeito de foco por meio de contração pupilar.
Como funcionam os colírios mióticos na presbiopia?
Os colírios mióticos atuam nos receptores muscarínicos da íris, provocando miose. Essa redução do diâmetro pupilar cria um efeito de “pin-hole”, aumentando a profundidade de campo óptico. Assim, o paciente consegue enxergar melhor objetos próximos, sem afetar significativamente a visão de longe.
O uso de mióticos para presbiopia remonta à década de 1970, mas apenas com formulações modernas — mais estáveis e com ação prolongada — o método tornou-se viável clinicamente.
A revisão sistemática de 2024 (PMC11541684) destacou que a pilocarpina de baixa concentração apresenta boa eficácia por até 6 horas, com perfil de segurança aceitável. No entanto, sintomas como dor de cabeça, ardor ocular e dificuldade para enxergar em ambientes escuros ainda limitam seu uso contínuo.
O que há de novo: o colírio aceclidina (Vizz®)
Em julho de 2025, a Food and Drug Administration (FDA) aprovou o colírio aceclidina 1,44% (Vizz®) para tratamento da presbiopia. A informação foi confirmada pela própria LENZ Therapeutics e noticiada pela CNN Brasil (fonte).
De acordo com a empresa, os resultados dos ensaios clínicos CLARITY 1, 2 e 3 mostraram melhora de três linhas de visão para perto em mais de 70% dos voluntários, com efeito durando até 10 horas.
O produto deve chegar às farmácias norte-americanas ainda em dezembro de 2025, com preço médio estimado em US$ 80 a US$ 100 por frasco (aproximadamente R$ 460 a R$ 575, considerando a cotação de R$ 5,75 por dólar) com medicação suficiente para um mês de tratamento.
A Anvisa ainda não avaliou o medicamento, portanto o uso permanece restrito aos Estados Unidos.
A aceclidina é mais segura que a pilocarpina?
Segundo o artigo Efficacy and Safety of Pharmacologic Treatments for Presbyopia: A Systematic Review and Meta-analysis (PMC11856121), a aceclidina apresenta menor incidência de efeitos colaterais, como cefaleia e perda de visão noturna, quando comparada à pilocarpina.
A principal diferença está na seletividade farmacológica. A aceclidina provoca uma miose mais centrada, sem afetar significativamente a acomodação, o que reduz sintomas de borramento e desconforto visual.
Ainda assim, especialistas alertam que não há evidências de que esses colírios interrompam a progressão da presbiopia. O efeito é temporário e requer reaplicação diária.
Quais outros medicamentos estão em desenvolvimento?
Além da pilocarpina e da aceclidina, várias companhias exploram combinações de mióticos e agentes simpaticolíticos. Pesquisas pré-clínicas e ensaios de fase 2 investigam compostos como:
- Carbacol 2% + brimonidina 0,2% – promove miose prolongada com menor irritação.
- Brimonidina isolada – atua por mecanismo alfa-adrenérgico, reduzindo o tamanho pupilar sem contrair o músculo ciliar.
- Fisiostigmina e oxotremorina – agentes históricos, descartados por alta toxicidade local.
Além disso, há estudos sobre colírios antioxidantes e moduladores do colágeno, que buscam restaurar parcialmente a flexibilidade do cristalino. Esses ainda estão em fase experimental.
Há tratamentos aprovados pela Anvisa?
Até o momento, nenhum colírio farmacológico para presbiopia foi aprovado pela Anvisa. No Brasil, a correção continua baseada em lentes corretivas (óculos ou lentes de contato), e em situações especiais, as cirurgias refrativas e técnicas de ablação a laser.
No entanto, a recente aprovação do Vizz® nos Estados Unidos e o interesse crescente da comunidade médica indicam que pedidos de registro podem ser protocolados em breve. O histórico da Anvisa mostra que a agência costuma avaliar medicamentos oftálmicos inovadores em até 12 meses após aprovação pelo FDA.
Quais são as limitações e perspectivas futuras?
Embora promissores, os colírios para presbiopia não substituem o tratamento óptico ou cirúrgico em todos os casos. A eficácia depende da idade, grau de rigidez do cristalino e sensibilidade individual aos mióticos.
As principais limitações observadas incluem:
- Efeito temporário, exigindo reaplicação diária.
- Risco de cefaleia, visão turva ou contração excessiva da pupila.
- Ausência de dados sobre uso prolongado.
Por outro lado, a aprovação regulatória recente representa um avanço real. O uso de fármacos pupilomiméticos marca uma nova era de terapias não invasivas para a presbiopia, podendo futuramente ser combinado com agentes regenerativos.
O que dizem os estudos sobre o futuro da presbiopia?
Pesquisas em bioengenharia ocular exploram terapias regenerativas voltadas à restauração da elasticidade do cristalino, possivelmente através de enzimas que quebrem ligações cruzadas de colágeno. Outras linhas investigam nanopartículas e moduladores de matriz extracelular para reverter parcialmente a esclerose do cristalino.
A convergência entre farmacologia, biomateriais e inteligência artificial tende a acelerar o desenvolvimento de novas terapias personalizadas. Em longo prazo, espera-se que a presbiopia seja tratada não apenas como sintoma, mas como um processo biológico reversível do envelhecimento ocular.
Considerações finais
A presbiopia afeta bilhões de pessoas no mundo e, até recentemente, apenas lentes ou cirurgias ofereciam solução prática. Hoje, colírios como o Vuity® e o recém-aprovado Vizz® representam um avanço tangível rumo à farmacologia da longevidade visual.
Contudo, é fundamental manter uma postura realista: a correção farmacológica é eficaz, mas temporária, e não impede a progressão natural da perda de acomodação. À medida que novas moléculas emergem, o equilíbrio entre eficácia e segurança será o principal desafio da próxima década.
Referências científicas
- Otero-Marquez O, et al. An updated systematic review of pharmacological treatments for presbyopia. Adv Ophthalmol Pract Res. 2024. PMC11541684
- Tavares LP, et al. Efficacy and Safety of Pharmacologic Treatments for Presbyopia: A Systematic Review and Meta-analysis. 2025. PMC11856121
- FDA. Highlights of Prescribing Information – Vizz (Aceclidine Ophthalmic Solution 1.44%). 2025. accessdata.fda.gov
- CNN Brasil. Colírio que melhora visão de perto sem óculos é aprovado nos EUA. 2025. cnnbrasil.com.br
- Glasser A, Campbell MCW. Presbyopia and the optical changes in the human crystalline lens with age. Vision Res. 2023.


























